LOJA 99

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Postado por: fatoscabulosos sábado, 14 jan. 2017

Não divulgo nomes, nem marcas, quero distância de polêmicas, mas acho válido contar o caso como presenciei. Algum tempo atrás, trabalhei em uma loja de moda íntima feminina de uma jovem e promissora empresária, que chamarei por Sara. Era sua primeira vez como empresária e sua inexperiência era tão visível quanto o silicone duro dos seus peitos. Éramos quatro meninas e o porteiro da idade do meu pai — mais ou menos.

Fazíamos auditoria em algumas mercadorias, principalmente nas peças pequenas que ficavam expostas à frente da loja. Sara, munida de sua caderneta tomava nota do número de peças:

— Meninas, tem algo errado.

— Sim, não vendemos nada, a semana tá muito fraca! — Respondeu a novata que também era atrasada no raciocínio.

— Quero dizer que estão faltando cinco peças.

Soltaram grunhidos de incompreensão, atentas umas às outras, como se a ladra fizesse parte do grupo.

— Não acusei ninguém! — Salientava Sara — Se não acharem vou ter que descontar do salário de todas, entenderam?

— Não, isso não é justo — respondi, justiceira, na convicta ideia de que seria apoiada, e fui, pelo silêncio.

Sara não cobrou de ninguém, embora tivesse declarado guerra a ladra que estivesse afanando as peças. Na mesma semana, colocou seu cão farejador a cuidar os corredores da loja, mas o olhar clínico do porteiro era seletivo. Percebia-o de soslaio enquanto atendia, sobre mim recaiam seus olhos castanho-escuros, tão cheios de malícia, como se suspeitasse sempre de mim por outros motivos não tão compreensíveis. Minha cliente não notava, fazia questão de desdobrá-la para que não percebesse.

— Adorei aquela lingerie vermelha. — Apontava faceira.

— Ah, sim! É maravilhosa, feita cem por cento de algodão. — Chamei-a para um canto com a ousadia que nossa amizade tinha ­­— Sabe, digo mais, essas não irritam a área pélvica, pode depilar tranquila que não dá alergia.

— Ai, maravilha! Eu preciso arriscar algo diferente com o Everaldo. Sabe né ­— dizia piscando o olho — Casamento precisa ser reinventado todos os dias.

— Sim, claro que sim! 

 Concordava enquanto vestia a cara necessária para disfarçar o olhar do porteiro e segundos depois, o de Sara enfiada entre as araras, tão colorida quantos as roupas. Minha cliente, que aqui prefiro chamar assim, na visão de minha chefe, não precisava de outra identificação, apenas uma característica a diferencia, a mesma minha que, por sinal, era mesma do porteiro.

 Aliás, todos fingiam muito bem — principalmente quando a cliente mais “querida” da casa deixava o salário de todas nós juntas em roupas que não deveria usar mais que duas vezes. Sara a amava — e deveria mesmo. Todas as meninas queriam atendê-la, atropelavam-se, trocavam olhares rançosos — não vou bancar a sonsa, também amaria atendê-la, embora me desse angústia de ver sua relação com o dinheiro. Apontava para as saias, blusas e sapatos que mais gostava indiscriminadamente.

— Gostei dessas.

— Temos mais modelos com esse corte, posso trazer para senhora — replicava Sara sorridente.

— Sim, por favor!

­A novata vinha abarrotada de roupas, mal se via sua cara enfiada entre elas, também não era preciso, Sara até preferia assim.

— Aqui! Coloca aqui! — dizia a cliente, impositiva.

Inclinava-se com dificuldade, a mulher assistia indiferente, a xícara de café em sua mão manuseada pelos dedos finos, quando terminava, a colocava na mão de quem estivesse por perto, sem aviso prévio, como se fosse a extensão de seus membros acomodados no conforto do sofá em que se sentava.

— Queres mais cafezinho? — Indagava Sara, passando a mão na testa, um tanto suada.

— Não querida, quero saber aonde estão aqueles vestidos azuis de paetê que vi da última vez. São divinos!

— Ah, sim. Vou procurar, só um segundo.

Saiam todas desajeitas aos tropeços, Sara as acompanhava no olhar, a primeira que achava vendia, a caça ao tesouro que renderia alguns reais a mais no fim do mês. Enquanto procuravam, a mulher andava solta pela loja, passava os olhos por algumas peças, o barulho das batidas dos sapatos, secas e compassadas. Sonhavam em acompanhar aquele som, serem as primeiras em tê-la na agenda de clientes, todas tolas, assim como fui um dia. Para ela, eu era invisível, talvez para ser mais justa, uma alegoria, um objeto a ser usado. Por duas vezes desde que começara nesse novo emprego, escutei meu nome saindo por aquela boca avermelhada de lux la Prairie de dentes alvíssimos. A primeira, para me alcançar a xícara de café; a segunda quando falou mal de suas empregadas e me ofereceu um bico de faxineira dizendo que eu tinha boa aparência para isso. Quando dito por ela, meu nome adquiria todos tons das sílabas, saia quase como aveludado, era incrível como parecia chique até descobrir que era dessa forma que intimidava a todas nós.

­— Querida! ­— Chamava ela já de mão num vestido.

Era como chamava Sara, todas nós sabíamos.

— Gostou desse?

— Oh sim, gostei, mas estou um pouco indisposta para experimentar, caso eu não goste mando meu motorista trazer de volta e você me mande qualquer um daqueles que eu deixei separado.

­— Mas é claro, os outros são seus e estão separados.

­— Pois bem! Então vou levar todos os que estão sobre o sofá, minha querida! Gostei muito do cafezinho.

— Fico muito feliz!

Quando dava as costas, a loja se aliviava, quase se ouviu em uníssono o som dos pulmões devolvendo o ar preso, o suspiro como de ter visto a rainha Elizabeth. O porteiro soltava o ar afrouxando a barriga sugada e presa pelo cinto, as vendedoras secavam o suor da testa e Sara aliviava sua expressão de rubor.

Sara tornou a fazer averiguações nas peças da loja, a caderneta nas mãos, a caneta batia nos lábios, no papel, nos lábios e no papel novamente… Subiu o olhar, todas se contorceram, algo estava errado.

— Faltaram 8 peças.

— Impossível! — Disparou a novata desconfiada da própria afirmação.

— Não, é bem impossível! Tão possível que se tornou reincidente. — Soltou a caderneta com violência sobre o balcão. Disparou em mim o primeiro olhar com o qual gostava de espezinhar todas nós, mas de alguma forma mais demorado sobre mim, reparou na minha reação. — Duas vezes no mesmo mês, desculpem, vou ter que descontar. Depois repasso a todas o valor que será descontado das comissões.

Naquele momento, aparentemente, tudo estava resolvido.

No intervalo, gostava de sair da loja, não fazia bem para minha gastrite olhar para aquelas caras nauseadas suscitantes de mal-estar. Exceto a novata, aquela falsa inocência exaustiva, suas histórias brotavam do silêncio das palavras quando o único som que se ouvia era o dos talheres e das bocas mastigando, aliás dizer que ruminavam era muito ofensivo, embora gostasse de repetir mentalmente desses elogios.

Do retorno do almoço o silêncio denunciava o humor de Sara, bem que a novata avisara, ela passou em todos os setores avaliando organização e limpeza, chegou ao meu enquanto ainda espanava e posicionava os cabideiros. Silenciosa, tocou em algumas roupas, passou o dedo no balcão, nas gavetas conferiu as lingeries, pigarreou por duas vezes na tentativa de chamar minha atenção. Levantei o olhar na altura do seu sem dizer nada.

— É assim que arruma o teu guarda-roupa?

Pelo tom da pergunta, antevi a intenção.

— Não sei dizer se assim, mas tento arrumar da melhor maneira.

­— Hum… Mas vou te dizer que não é o suficiente. Na minha loja exijo mais que isso.

— Sim, senhora!

— É só isso que consegue me dizer? ­— enrugou a testa — Só vou te dar um recado; se quiser ficar aqui, é do meu jeito, entendeu? Não é qualquer uma que consegue, todas tem que se esforçar muito — estufou o peito arrumou a blusa desajeitada, desferiu o velho olhar conhecido — É… — Soltou um leve pife — embora eu confesse que algumas devem se esforçar mais que as outras.

Um último olhar de cima a baixo antes de dar às costas para tristeza que devia ser contida. Quando as batidas do salto alto se afastaram, o peso dos meus ombros me pusera em frangalhos e quando acontecia, sempre lembrava dela, a razão do meu dolorido esforço, na porta do meu armário onde guardava meus pertences. O sorriso branco, o cabelo crespo, alegria que me aguardava após um expediente, segurava meu fôlego. Tateei minha bolsa, tirei minha escova, soltei o cabelo que insistia em se armar. Ritual interrompido pelas batidas do salto-alto que invadiram o vestuário. Por algum motivo, aquele dia, fui deixada por última, limpar e organizar o setor tomou toda a tarde e um dia de vendas sacrificado. A sombra se projetava sobre o piso, o cabelo avolumado no topo da cabeça se esticava em mechas lisas e sedosas produzidas pelo melhor botox capilar, os lábios retocados assim como o perfume que permanecia entranhado naquela pele o dia todo.

— Espero que não tenha ficado chateada, procedimentos são procedimentos.

— Não estou chateada, são procedimento, não?

Puxava a bolsa do armário, organizando maquiagens, espelho, creme dental e escova de dentes conforme deixava, com a mão direita levei o cadeado a porta.

— Antes de fechar, gostaria de ver seu armário, combinei com as meninas que esse será o procedimento a partir de agora.

­— Ninguém me contou sobre isso? — Recuei a encarando nos olhos.

—Então, agora está comunicada.  Isso não deve tomar nem um minuto do teu tempo, sou obrigada a tomar atitude mediantes, se é que me entende.  

A encarei em silêncio, não estava satisfeita com a invasão, afastei o corpo do armário escancarando-o para trás. Os passos inconfundíveis e as batidas do salto cessaram quando olhou para dentro do armário, virou na direção.

— Agora a bolsa.

­— A minha bolsa? Por quê?

— Sim, algum problema?

Tremi e talvez ela tenha percebido, não esperava que tomasse essa atitude, recuei mais dois passos, a encarei de esguelha, algo estava errado, temia o pior, meu cadeado era o único que não fechava e todas sabiam, poderia esperar qualquer coisa, isso me corroía, como não pensei antes? Correr riscos era algo que não podia cogitar. Sentia o rubor aquecer meu rosto, minhas mãos geladas e insensíveis, nem sequer abrira a bolsa quando a tomei no ombro. E se tiver algo dentro? Nunca conseguiria provar do contrário, tudo recairia sobre mim, o emprego, a minha dignidade, o sustento da minha filha. O coração acompanhava o fluxo de pensamentos, decidida a trocar o cadeado do meu armário, não poderia correr riscos, ou talvez, fosse tarde demais, ela tornou a insistir.

­— Algum problema?

­— Não, claro que não. — Mal terminei de falar e joguei a bolsa em seu colo, constrangida me devolveu.

— Não é necessário isso, você mesma pode abri-la, por favor!

Avancei a tomando, despejando sobre a mesa, todos meus pertences íntimos ao alcance de seus olhos, mais constrangida continuou:

— Não precisava ter feito isso! Junte, estou esperando na frente.

Não a respondi, embora tivesse disposta a continuar aquele jogo, queria ver até onde ela seria capaz.

Na manhã o silêncio imperou, todas tiraram o início do expediente para organização dos setores, a novata era única que ousava trocar algumas palavras e isso me deu ideia do que eu deveria fazer. Busquei uma aproximação, disfarçando afazeres próximo ao setor das bolsas, ela quebrava a cabeça tentando fazer uma vitrine chamativa.

— Quer uma ajuda?

Ela deu um pulo, não esperava minha aproximação.

— Ah, se não for te incomodar. O que acha de colocarmos as Pradas ali daquele lado? — apontava para a primeira vitrine à esquerda de quem entrava na loja.

— Acho muito bom! — Confirmei a ideia, a primeira que teve desde que entrou, mesmo sabendo que Sara detestaria.

Chamei-a de canto.

— Vem cá, ficou sabendo da última? — Questionei em tom de fofoca.

— Não! Ai me conte, por favor!

— Sara está fazendo um novo procedimento.

— Não acredito! Mais uma plástica naquela cara.

— Não, expliquei mal, ela criou mais um procedimento, agora antes de sair da loja temos que mostrar o armário e a nossa bolsa.

Ela franziu a testa.

— Não fiquei sabendo disso. Não mostrei nada ontem.

Recuei, e minha desconfiança se confirmou, foi apenas a minha, enfim fui exclusiva, mesmo que fosse para ser revistada. Dei meia volta quando senti a mão repousar sobre meu ombro.

— Também tenho que te contar uma coisa.

Nem respondi, apenas virei na direção.

— Fiquei sabendo que a Sara está desconfiada de alguém.

— Ah é, capaz? Quem será?

— Menina, você é muito inocente.

— De quem? — Insisti fingindo a tal inocência.

— Daquela tua cliente que atendeu aquele dia, a da lingerie de algodão.

Dei as costas sem responder, ela voltou a me chamar.

— Não vai me ajudar?

Continuei sem dar atenção, abraçada numa raiva capaz de refazer aquelas malditas plásticas a unha. Primeiro a mim, depois minha cliente, e tudo fazia completo sentido, o que tínhamos em comum, o que a hipocrisia chamaria de morena (s). Já cansei de repetir incansavelmente que não sou morena, sou negra e repito quantas vezes for necessário a quem for necessário. Certifiquei de que estava com raiva suficiente antes de chamá-la, cercada de razão, disposta a acabar com toda aquela situação. Sara estava na sua sala, era o momento certo, encerraria meu contrato, tomaria minhas coisas, e encontraria outro emprego como deveria ter feito há tanto tempo em que os abusos se iniciaram. Caminhei em direção a sala, pelo pequeno corredor que pareceu se alongar entre o espaço de tempo e distância em que pensei sobre minha decisão, e dessa vez não mudaria de ideia como das outras.

Quando me dei por conta, estava com o nariz encostando na porta gelada, respirei fundo sentindo o ar frio invadir os pulmões, bati três vezes. A voz irritada gritou lá de dentro.

— Entra!

Abri a porta, irada. Ela logo me torceu o rosto como se não esperasse minha figura na sua sala na primeira hora da manhã.

— Sim?

A pergunta monossilábica ficou no ar por poucos segundos antes que da porta soasse mais três toques.

— Nossa! Hoje estou requisitada. Entra!

A porta se abriu e dessa vez era a novata, fiquei mais irritada, na dúvida se ela me chamaria para ajudá-la no seu setor, mas sua expressão queria dizer mais que aquilo.

— Sara, tem uma moça querendo falar com você.

— Quantas vezes disse que se for currículo podem pegar, estou atarefada, não posso parar o que eu estou fazendo.

— Não é currículo.

A resposta ficou no ar, suspensa, assim como a expressão insonsa de Sara que pediu para que eu me retirasse e retornasse mais tarde. Engoli a raiva por alguns segundos, sabia o quanto esse tempo era perigoso para minha decisão. Dei as costas ainda na convicta ideia de que voltaria a ter aquela conversa. No corredor, cruzei pela moça, e se não fosse pelo vestido, cabelos, joias e bolsa Victor Hugo jamais me chamaria atenção, e a dúvida do que seria me corroeu mais do que imaginava.

Na insistência da novata, a ajudei a organizar a vitrine, contava os minutos para que aquela misteriosa conversa na sala acabasse para que enfim eu pusesse um fim nessa história. Pela movimentação das meninas, havia algo muito errado. A novata circundava pela loja, trocava conversas com as outras. Voltei ao meu setor, entediada, esperei e como temia, o tempo esfriou minha decisão, plantando a cruel dúvida. A jovem rica saia da sala acompanhada pelo olhar pasmo de Sara, se despediram em um tímido acenar. Sara retornou à sala sem dar uma palavra. Todas se olharam e ela esquecera que antes da visita, eu a havia chamado para uma séria conversa. Minha coragem se desvaiu de vez, no intervalo, nunca fora acompanhada por nenhuma das minhas colegas, mas ao levantar, pelas minhas costas, percebi que a novata me perseguia como sombra até o momento de se manifestar:

— Vou contigo!

Não respondi, sai e a senti me seguindo, e meu humor indo muito além do meu passo. Nos corredores do shopping, despejou o motivo de seu interesse em passear ao meu lado, começou a falar e a pressa de sua fala me fez observar as pequenas gotas de saliva saltarem de sua boca.

— Ficou sabendo da última?

— Não, o que foi? — Refiz a pergunta, sonsa, como ela esperava.

— Sabe aquela moça que esteve conversando com a Sara de manhã?

Confirmei com a cabeça

— Pois sabe qual o motivo para ter vindo à loja?

O insistente suspense me irritou, mas resisti a tentação de esganá-la.

— Ela é filha daquela cliente ricaça que vem aqui e deixa todo mundo em polvorosa. Veio pedir desculpas em nome da mãe. Trouxe todos os objetos roubados da loja, nem vai acreditar, tinha outras peças que Sara nem tinha desconfiança de que haviam sumido, colares, brincos outras joias. A mulher tem uma tal doença — coçava a cabeça na tentativa de lembrar o nome — Ai! como é mesmo o nome…? Clepti… Clepto…. Cleptomania. É isso, eu acho.

Parei diante da novata sem reação.

Respondido por: supersincero Quinta, 24 jan. 2017

Já conheceu algum negro cleptomaníaco?